Em “Os Leitores silenciosos”, Alberto Manguel discorre sobre a transição do hábito da leitura em voz alta para a leitura silenciosa, retratando os costumes de leitura desde o século IV ao século XV. Manguel acena para as conseqüências de tal mudança, revelando os aspectos político-sociais imbricados em cada forma de leitura e ainda retrata as alterações na própria forma do texto, cujo intuito era favorecer a relação direta do leitor com o texto em detrimento à leitura em voz alta, que passava pela interpretação de seu orador.
Por meio da surpresa de Augustinho ao se deparar com o leitor silencioso Ambrosio, Manguel discute a forma de leitura (oral ou silenciosa) enquanto um fator social.
A leitura em voz alta era tida como usual até o século X, sendo que o primeiro relato de um leitor silencioso por convicção data o final século IV, quando Augustinho encontra o bispo Ambrósio lendo silenciosamente em sua cela.
Existia na época uma grande valorização da oratória, vinda desde Aristóteles, e no caso religioso da pregação. Os leitores ensaiavam seus textos e se preparavam para as leituras, que em geral se davam em espaços públicos ou ao menos acompanhadas por alguém. Ao ler o orador devia ser a voz do autor ausente, por tanto a leitora era destinada aqueles que estavam habituados e conheciam o ofício. Nas bibliotecas todos liam ao mesmo tempo sem se preocupar com o silêncio, tão valorizado atualmente em locais de estudos e leituras. Mesmo os escribas tinha seus textos ditados um ao lado do outro, sem que isso parecesse um problema.
Ler e falar eram quase sinônimos, o texto era uma conversa, um conjunto de sons que deveria ser desembaralhado com destreza por seu orador, conseqüentemente a forma de escrita do texto era pensada para ser lida em voz alta.
Os livros não eram separados em unidades fonéticas e nem possuíam marcas gráficas para representara pausas ou acentuações. A leitura era feita através de frases contínuas, muitos texto estavam em rolos sem pontuação ou distinção entre maiúsculas e minúsculas, nem mesmo a atual escrita da esquerda para direita era uma regra. Alguns textos eram escritos em colunas verticais, outros da direita para esquerda e alguns ainda variavam: cada linha em uma direção, comprovando, mais uma vez, que a forma de leitura, que parece tão natural, é em realidade resultado de aspectos culturais.
A leitura silenciosa representou uma mudança que ia além da forma de se ler, uma vez que o contato se dava sem diretamente com texto, sem intermediários, propiciava ao leitor novas interpretações e o espaço para reflexão, fugindo do controle dos habituais oradores.
O ato de ler ganhou novo espaço, saia do público e se tornava particular, invadia a casa dos leitores, ampliando o número de leitores. A leitura silenciosa permitia que ao longo do texto o leitor acessasse outros textos na memória ou mesmo através de consultas simultâneas.
A não necessidade da pronuncia de cada palavra dava outro ritmo a leitura e pedia novas marcas gráficas no texto. Aos poucos começou a separação por páginas com numeração, a divisão das palavras em frases, o início de uma pontuação ainda precária, que só ganhou aperfeiçoamentos depois do século VI e por fim a separação das palavras no século IX, quando começou a ser exigido também dos escribas o silêncio durante o trabalho.
Manguel levanta algumas frases comuns na fala atual que seriam hipóteses de resquícios da leitura em voz alta, como: “Fulano disse”, significando “fulano escreveu”, ou “Este texto não soa bem” quando se está dizendo “Este texto não está bem escrito”.
Foram várias as conseqüências apontadas pelo autor com normalização da leitura silenciosa. Para os mais dogmáticos o hábito de ler em silêncio pode levar a preguiça e ao ócio, no entanto, a maior conseqüência apontada pelo autor ocorreu no mundo cristão.
A leitura direta da bíblia, considerada um pecado para a Igreja, e também de outros livros gerou uma série de discursos heréticos que contradiziam muitos dogmas do catolicismo. Inicialmente a Igreja rejeitava tais discursos ou, em certos casos, incorporava-os com o objetivo de estabelecer um dogma comum.
Foi no século XVI que a Igreja levou seu maior golpe, quando teve seus dogmas e suas práticas contestadas pelo então monge Martinho Lutero, dando início a Reforma Protestante, que ainda incluiria Emerson e Calvino.
O autor encerra seu texto retomando o encontro entre Ambrósio e Augustinho e dizendo que o que parecia ser um ato solitário, anos depois se tornou o padrão de leitura.
Por meio da surpresa de Augustinho ao se deparar com o leitor silencioso Ambrosio, Manguel discute a forma de leitura (oral ou silenciosa) enquanto um fator social.
A leitura em voz alta era tida como usual até o século X, sendo que o primeiro relato de um leitor silencioso por convicção data o final século IV, quando Augustinho encontra o bispo Ambrósio lendo silenciosamente em sua cela.
Existia na época uma grande valorização da oratória, vinda desde Aristóteles, e no caso religioso da pregação. Os leitores ensaiavam seus textos e se preparavam para as leituras, que em geral se davam em espaços públicos ou ao menos acompanhadas por alguém. Ao ler o orador devia ser a voz do autor ausente, por tanto a leitora era destinada aqueles que estavam habituados e conheciam o ofício. Nas bibliotecas todos liam ao mesmo tempo sem se preocupar com o silêncio, tão valorizado atualmente em locais de estudos e leituras. Mesmo os escribas tinha seus textos ditados um ao lado do outro, sem que isso parecesse um problema.
Ler e falar eram quase sinônimos, o texto era uma conversa, um conjunto de sons que deveria ser desembaralhado com destreza por seu orador, conseqüentemente a forma de escrita do texto era pensada para ser lida em voz alta.
Os livros não eram separados em unidades fonéticas e nem possuíam marcas gráficas para representara pausas ou acentuações. A leitura era feita através de frases contínuas, muitos texto estavam em rolos sem pontuação ou distinção entre maiúsculas e minúsculas, nem mesmo a atual escrita da esquerda para direita era uma regra. Alguns textos eram escritos em colunas verticais, outros da direita para esquerda e alguns ainda variavam: cada linha em uma direção, comprovando, mais uma vez, que a forma de leitura, que parece tão natural, é em realidade resultado de aspectos culturais.
A leitura silenciosa representou uma mudança que ia além da forma de se ler, uma vez que o contato se dava sem diretamente com texto, sem intermediários, propiciava ao leitor novas interpretações e o espaço para reflexão, fugindo do controle dos habituais oradores.
O ato de ler ganhou novo espaço, saia do público e se tornava particular, invadia a casa dos leitores, ampliando o número de leitores. A leitura silenciosa permitia que ao longo do texto o leitor acessasse outros textos na memória ou mesmo através de consultas simultâneas.
A não necessidade da pronuncia de cada palavra dava outro ritmo a leitura e pedia novas marcas gráficas no texto. Aos poucos começou a separação por páginas com numeração, a divisão das palavras em frases, o início de uma pontuação ainda precária, que só ganhou aperfeiçoamentos depois do século VI e por fim a separação das palavras no século IX, quando começou a ser exigido também dos escribas o silêncio durante o trabalho.
Manguel levanta algumas frases comuns na fala atual que seriam hipóteses de resquícios da leitura em voz alta, como: “Fulano disse”, significando “fulano escreveu”, ou “Este texto não soa bem” quando se está dizendo “Este texto não está bem escrito”.
Foram várias as conseqüências apontadas pelo autor com normalização da leitura silenciosa. Para os mais dogmáticos o hábito de ler em silêncio pode levar a preguiça e ao ócio, no entanto, a maior conseqüência apontada pelo autor ocorreu no mundo cristão.
A leitura direta da bíblia, considerada um pecado para a Igreja, e também de outros livros gerou uma série de discursos heréticos que contradiziam muitos dogmas do catolicismo. Inicialmente a Igreja rejeitava tais discursos ou, em certos casos, incorporava-os com o objetivo de estabelecer um dogma comum.
Foi no século XVI que a Igreja levou seu maior golpe, quando teve seus dogmas e suas práticas contestadas pelo então monge Martinho Lutero, dando início a Reforma Protestante, que ainda incluiria Emerson e Calvino.
O autor encerra seu texto retomando o encontro entre Ambrósio e Augustinho e dizendo que o que parecia ser um ato solitário, anos depois se tornou o padrão de leitura.
