Na sexta feira aproveitei a tarde livre e a escapada mais cedo do trabalho do meu namorado para tentar minimamente atualizar a lista de milhões de filmes que quero assistir e que, por outras milhões de razões, acabo não assistindo.
Fomos ver O segredo de seus olhos (El secreto de sus ojos, 2009), filme argentino ganhador do Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro.
Gosto muito do pouco que conheço do cinema argentino e entre meus filmes preferidos, não apenas portenhos, está O filho da noiva do mesmo diretor e roteirista, Juan José Campanella, o que me levou a chegar ao cinema com grandes expectativas.
O que eu esperava, e tanto adoro, encontrei no filme: uma mistura de um humor bastantes irônico e tipicamente argentino, com reflexões densas sobre a vida e suas escolhas. O roteiro é excelente e as cenas são extremamente sensíveis e logo se nota a preocupação com os mínimos detalhes por parte do diretor. É um filme harmônico. Comédia, drama, romance e suspense com a precisão necessária o tornam muito envolvente e humano, alem da atuação, sempre ótima, de Ricardo Darín.
É bem verdade que nos momentos finais senti alguns desfechos um pouco atropelados enquanto outros pareciam se arrastar, mas nada que comprometa, nem minimamente, a qualidade do espetáculo.
O filme narra a história de Benjamín Espósito, um funcionário público recém aposentado que busca, por meio da escrita de um romance policial, baseado em caso que ele mesmo investigou 25 anos antes, encontrar e compreender o sentido de sua própria vida. Aqui o processo de criação literária está em segundo plano, já que o autor do livro, na verdade, não discute em nenhum momento as dificuldades para se escrever ou seus métodos de trabalho. O uso da narrativa literária por parte do personagem é na verdade um grande desabafo, beirando a escrita de um diário, ou de um “memorando”, termo utilizado no próprio filme, uso esse bastante comum por escritores amadores, que encontram na redação de livros espaço para realizarem certo revisionismos de suas biografias e também expressarem sentimentos que só se fazem entender quando colocados no papel. Quem nunca escreveu para espantar seus medos?
Sem dúvidas o filme é ótimo, mas o melhor não estava na tela, e sim a duas poltronas da minha: eram os comentários extremamente graciosos de duas senhoras já para lá da terceira idade que completavam e ressignificavam o sentido do filme, reforçando a qualidade do que passava na telona.
Não sei se por surdez ou meramente por acharem, corretamente, que a certa altura da vida tudo é permitido e que vergonha e embaraço são problemas dos mais novos, as duas simpáticas senhoras comentavam em voz alta (bastante alta) cena a cena do filme.
Não cabia a mim reclamar, até porque eu estava bem me divertindo e além disso, o que fazia eu numa sessão em plena tarde de sexta?!
Alguns comentários eram para evitar confusões, já que às vezes as duas acabavam misturando os personagens e as cenas que ocorriam no presente e no passado da trama. Contudo, a maior parte deles eram respostas antecipadas aos diálogos ou pequenas reflexões sobre a vida e as relações humanas.
Quando Benjamín se questiona sobre como é possível viver uma vida cheia de “nada”, a senhora logo respondeu pensativa e com certa melancolia “é... é difícil”, e a outra rapidamente concordou. Melhor ainda era quando os personagens faziam piadas sobre envelhecer, como quando disseram que Benjamim e a velha máquina escrever da repartição se entenderiam porque ambos eram “dois dinossauros”. Era só gargalhada nas poltronas ao lado! Riam e cutucavam, repetindo a piada em voz alta! Risada boa, engraçada e cheia de vida.
O filme falava delas, da vida que passa e que está longe de ser cheia “de nada”. O que se pode mudar e o que realmente já foi, passou?Aquilo que pode no máximo ser colocado em algumas linhas de um livro-memorando, para que se possa ler reler, achar graça e tentar encontrar o melhor final, dentre aqueles que a própria narrativa da vida nos impõe. Eu estava no horário da sessão errada, ou não, mas certa de que faltava muito para que eu realmente pudesse entender o filme.
Fomos ver O segredo de seus olhos (El secreto de sus ojos, 2009), filme argentino ganhador do Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro.
Gosto muito do pouco que conheço do cinema argentino e entre meus filmes preferidos, não apenas portenhos, está O filho da noiva do mesmo diretor e roteirista, Juan José Campanella, o que me levou a chegar ao cinema com grandes expectativas.
O que eu esperava, e tanto adoro, encontrei no filme: uma mistura de um humor bastantes irônico e tipicamente argentino, com reflexões densas sobre a vida e suas escolhas. O roteiro é excelente e as cenas são extremamente sensíveis e logo se nota a preocupação com os mínimos detalhes por parte do diretor. É um filme harmônico. Comédia, drama, romance e suspense com a precisão necessária o tornam muito envolvente e humano, alem da atuação, sempre ótima, de Ricardo Darín.
É bem verdade que nos momentos finais senti alguns desfechos um pouco atropelados enquanto outros pareciam se arrastar, mas nada que comprometa, nem minimamente, a qualidade do espetáculo.
O filme narra a história de Benjamín Espósito, um funcionário público recém aposentado que busca, por meio da escrita de um romance policial, baseado em caso que ele mesmo investigou 25 anos antes, encontrar e compreender o sentido de sua própria vida. Aqui o processo de criação literária está em segundo plano, já que o autor do livro, na verdade, não discute em nenhum momento as dificuldades para se escrever ou seus métodos de trabalho. O uso da narrativa literária por parte do personagem é na verdade um grande desabafo, beirando a escrita de um diário, ou de um “memorando”, termo utilizado no próprio filme, uso esse bastante comum por escritores amadores, que encontram na redação de livros espaço para realizarem certo revisionismos de suas biografias e também expressarem sentimentos que só se fazem entender quando colocados no papel. Quem nunca escreveu para espantar seus medos?
Sem dúvidas o filme é ótimo, mas o melhor não estava na tela, e sim a duas poltronas da minha: eram os comentários extremamente graciosos de duas senhoras já para lá da terceira idade que completavam e ressignificavam o sentido do filme, reforçando a qualidade do que passava na telona.
Não sei se por surdez ou meramente por acharem, corretamente, que a certa altura da vida tudo é permitido e que vergonha e embaraço são problemas dos mais novos, as duas simpáticas senhoras comentavam em voz alta (bastante alta) cena a cena do filme.
Não cabia a mim reclamar, até porque eu estava bem me divertindo e além disso, o que fazia eu numa sessão em plena tarde de sexta?!
Alguns comentários eram para evitar confusões, já que às vezes as duas acabavam misturando os personagens e as cenas que ocorriam no presente e no passado da trama. Contudo, a maior parte deles eram respostas antecipadas aos diálogos ou pequenas reflexões sobre a vida e as relações humanas.
Quando Benjamín se questiona sobre como é possível viver uma vida cheia de “nada”, a senhora logo respondeu pensativa e com certa melancolia “é... é difícil”, e a outra rapidamente concordou. Melhor ainda era quando os personagens faziam piadas sobre envelhecer, como quando disseram que Benjamim e a velha máquina escrever da repartição se entenderiam porque ambos eram “dois dinossauros”. Era só gargalhada nas poltronas ao lado! Riam e cutucavam, repetindo a piada em voz alta! Risada boa, engraçada e cheia de vida.
O filme falava delas, da vida que passa e que está longe de ser cheia “de nada”. O que se pode mudar e o que realmente já foi, passou?Aquilo que pode no máximo ser colocado em algumas linhas de um livro-memorando, para que se possa ler reler, achar graça e tentar encontrar o melhor final, dentre aqueles que a própria narrativa da vida nos impõe. Eu estava no horário da sessão errada, ou não, mas certa de que faltava muito para que eu realmente pudesse entender o filme.

Flávia, a cena relatada ilustra bem a concepção da linguagem enquanto interação e diálogo. E sua posição ante o fato foi muito interessante, curiosa.
ResponderExcluirBeijo, Márcia.