quinta-feira, 29 de abril de 2010

Ser e escrever

“O senhor me pergunta se seus versos são bons. Pergunta isso a mim. Já perguntou a mesma coisa a outras pessoas antes. Envia seus versos para revistas. Faz comparações entre eles e outros poemas e se inquieta quando um ou outro recusa suas tentativas de publicação. Agora (como me deu licença para aconselhá-lo) lhe peço para desistir disso tudo. O senhor olha para fora, e é isso sobretudo o que não deveria fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele entende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isso: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profundo. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples “Preciso”, então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso.” (p.24,25)

O poeta Rainer Maria Rilke, ao ser indagado por jovem aspirante a poeta a respeito do que era necessário para se tornar um escritor, não lhe responde com dicas de técnicas literárias ao com métodos de trabalho, a resposta para ele está na pessoa, na necessidade quase divina de se escrever que deve, assim, moldar a vida. Ser escritor para o poeta beira uma categoria biológica determinada pelo nascimento. A escrita não é para ele um ofício que se escolhe, é uma forma de vida que escolhe seus adeptos.
O que vemos nas palavras de Rilke, quando comparamos com outros relatos de escritores, é que o ofício do escritor, assim como todos os outros, é carregado de atribuições simbólicas que variam de acordo com os contextos históricos em que cada escritor está inserido.
Não é a toa que quando lemos Rilke não encontramos nada parecido com um manual de redação, o que temos é quase um livro de auto-ajuda, maneiras de se conduzir a vida, o autor e o texto se fundem em uma só coisa. Para o poeta tudo que está no texto deve ser do autor, já que vida é pautada pela necessidade de escrever.
Hoje ainda encontramos esse tipo de fala, que atribui a escrita a um processo doloroso, quase um parto. Ainda que a idéia de inspiração venha sido somada ao trabalho de horas em frente ao texto, a concepção do sofrimento e da tormenta do ato de escrever como valor ou mérito de um texto é bastante usual e difundida. Como se bons escritores não pudessem ser felizes e falarem de coisas tristes.
Não acredito que Rilke não tenha de fato transformado sua vida em função dessa necessidade de escrever descrita por ele, e tão pouco deixo de acreditar que atualmente não existam escritores que, com base no domínio do método, sigam a riscas manuais de como escrever e acreditem piamente que este é caminho. Cada época forma seus próprios escritores.

Um comentário:

  1. Flávia, esse exercício da crítica foi muito bem realizado por você. O seu ponto de vista é sustentado por bons argumentos, o que faz de seu texto bem convincente, além de bem escrito. Gostei muito!
    Beijos, Márcia.

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