As memórias da infância são tão vivas quanto construídas, sempre repletas de cheiros e sensações que são nossos portos seguros quando tentamos nos entender no presente, nos agarramos muitas vezes a elas para atribuirmos sentido a nossa trajetória de vida. É vazio e assustador demais pensar que nos tornamos o que somos por uma simples somatória de acasos.
Nos depoimentos João de Ubaldo Ribeiro e de Graciliano Ramos sobre o momento em que começaram a ler, ainda crianças, temos testemunhos distintos dessa experiência. Para Ubaldo ler era apenas uma questão de tempo, uma parte da vida, assim que ele atingisse os 6 anos de idade aprenderia, como um bebê quando começa a andar. As letras foram ao longo da primeira infância se tornando algo familiar e cotidiano, ainda que não as decifrasse já as conhecia bem, e como ele mesmo disse, juntá-las lhe pareceu facílimo.
Já para a família de Graciliano a alfabetização era um sinal de status, algo a ser conquistado e dominado ao custo de esforço e do côvado. A leitura para ele era algo distante de sua realidade e que se tornou uma obrigação que pouco lhe fazia sentido. Um verdadeiro sofrimento e uma grande decepção, já que logo percebeu que decifrar as letras não era o mesmo que atribuir sentido ao que se lia.
Embora as experiências sejam distintas, assim que terminei de lê-las, recorri às minhas memórias e não foi difícil recordar da ansiedade que me causava ver todo aquele alfabeto e saber que eu ainda não conhecia todas as sílabas. Treinava de maneira incansável a leitura, da janela do carro ia lendo todas as placas possíveis e sempre acabava tropeçando em algum “nh” ou em um acento grave. Ler era uma autonomia, era enfim fazer parte de um novo grupo. Tínhamos muitos livros infantis em casa, quase todos da minha irmã, e mesmo que ela me emprestasse e que eu gostasse das ilustrações dependia dos outros para saber o que estava escrito. Muitas vezes era minha própria irmã quem me contava as histórias, algumas vezes percebia que ela inventava o que estava escrito, em geral para me dar medo, ficava brava por saber que não tinha como ter certeza. Depois de grande, quando já sabia ler, pedia para minha irmã ler histórias para mim. Ela lia em voz alta Agatha Christie antes de dormirmos e juntas tentávamos descobrir os assassinos, mas isso já é uma outra história...
A alfabetização é diferente para cada um, variando do contexto familiar e social, mas para todos que vão até o fim e descobrem que aquele monte de símbolos são, mais do que palavras e sons, um mundo de idéias e possibilidades, a experiência das primeiras leituras é uma marca que levamos e que certamente permeia nossa relação com os livros e com a escrita. O que fica evidente em ambos os depoimentos é que o domínio da leitura, seja ele prazeroso ou sofrido, é um caminho sem volta que modifica a relação estabelecida com o mundo.
Propor uma relação direta entre a formação do indivíduo e a formação do escritor pode nos levar a certos reducionismos e a busca por fórmulas mágicas. Como se a formação de um escritor fosse a conseqüência de experiências específicas de vida. Ser um escritor não é uma equação matemática, cuja soma de certos números culmina sempre no mesmo resultado. Conhecer o momento em que esses dois escritores aprenderam a ler, acredito, é importante para entendermos suas obras e seus estilos literários. Serve para analisarmos seus casos específicos e, no máximo, caso desejemos generalizar, concluir que, para se tornar um escritor é preciso saber ler. Se quisermos ir além podemos dizer que também ajuda nessa equação cheia de variantes o fato de se ter uma família que valorize a leitura e escrita como um instrumento de transformação, seja de cunho pessoal ou social.
Lendo esses depoimentos, num primeiro momento me pareceu óbvio que a formação era fundamental tanto para o gosto pela leitura, como pela arte de escrever. Estava pensando em como escrever algo que defendesse essa hipótese enquanto escutava, parada no trânsito, uma reportagem na CBN de uma série intitulada “Casos e causos de Brasília”, em comemoração aos 50 anos da cidade. A matéria era sobre o açougue T-Bone, conhecido na capital como Açougue Cultural. Seu proprietário transformou boa parte do espaço em um a biblioteca popular, que hoje abriga mais de 20 mil abras, além de receber em seu espaço escritores, músicos e outros artistas para noite de autógrafos e eventos culturais.
Nos depoimentos João de Ubaldo Ribeiro e de Graciliano Ramos sobre o momento em que começaram a ler, ainda crianças, temos testemunhos distintos dessa experiência. Para Ubaldo ler era apenas uma questão de tempo, uma parte da vida, assim que ele atingisse os 6 anos de idade aprenderia, como um bebê quando começa a andar. As letras foram ao longo da primeira infância se tornando algo familiar e cotidiano, ainda que não as decifrasse já as conhecia bem, e como ele mesmo disse, juntá-las lhe pareceu facílimo.
Já para a família de Graciliano a alfabetização era um sinal de status, algo a ser conquistado e dominado ao custo de esforço e do côvado. A leitura para ele era algo distante de sua realidade e que se tornou uma obrigação que pouco lhe fazia sentido. Um verdadeiro sofrimento e uma grande decepção, já que logo percebeu que decifrar as letras não era o mesmo que atribuir sentido ao que se lia.
Embora as experiências sejam distintas, assim que terminei de lê-las, recorri às minhas memórias e não foi difícil recordar da ansiedade que me causava ver todo aquele alfabeto e saber que eu ainda não conhecia todas as sílabas. Treinava de maneira incansável a leitura, da janela do carro ia lendo todas as placas possíveis e sempre acabava tropeçando em algum “nh” ou em um acento grave. Ler era uma autonomia, era enfim fazer parte de um novo grupo. Tínhamos muitos livros infantis em casa, quase todos da minha irmã, e mesmo que ela me emprestasse e que eu gostasse das ilustrações dependia dos outros para saber o que estava escrito. Muitas vezes era minha própria irmã quem me contava as histórias, algumas vezes percebia que ela inventava o que estava escrito, em geral para me dar medo, ficava brava por saber que não tinha como ter certeza. Depois de grande, quando já sabia ler, pedia para minha irmã ler histórias para mim. Ela lia em voz alta Agatha Christie antes de dormirmos e juntas tentávamos descobrir os assassinos, mas isso já é uma outra história...
A alfabetização é diferente para cada um, variando do contexto familiar e social, mas para todos que vão até o fim e descobrem que aquele monte de símbolos são, mais do que palavras e sons, um mundo de idéias e possibilidades, a experiência das primeiras leituras é uma marca que levamos e que certamente permeia nossa relação com os livros e com a escrita. O que fica evidente em ambos os depoimentos é que o domínio da leitura, seja ele prazeroso ou sofrido, é um caminho sem volta que modifica a relação estabelecida com o mundo.
Propor uma relação direta entre a formação do indivíduo e a formação do escritor pode nos levar a certos reducionismos e a busca por fórmulas mágicas. Como se a formação de um escritor fosse a conseqüência de experiências específicas de vida. Ser um escritor não é uma equação matemática, cuja soma de certos números culmina sempre no mesmo resultado. Conhecer o momento em que esses dois escritores aprenderam a ler, acredito, é importante para entendermos suas obras e seus estilos literários. Serve para analisarmos seus casos específicos e, no máximo, caso desejemos generalizar, concluir que, para se tornar um escritor é preciso saber ler. Se quisermos ir além podemos dizer que também ajuda nessa equação cheia de variantes o fato de se ter uma família que valorize a leitura e escrita como um instrumento de transformação, seja de cunho pessoal ou social.
Lendo esses depoimentos, num primeiro momento me pareceu óbvio que a formação era fundamental tanto para o gosto pela leitura, como pela arte de escrever. Estava pensando em como escrever algo que defendesse essa hipótese enquanto escutava, parada no trânsito, uma reportagem na CBN de uma série intitulada “Casos e causos de Brasília”, em comemoração aos 50 anos da cidade. A matéria era sobre o açougue T-Bone, conhecido na capital como Açougue Cultural. Seu proprietário transformou boa parte do espaço em um a biblioteca popular, que hoje abriga mais de 20 mil abras, além de receber em seu espaço escritores, músicos e outros artistas para noite de autógrafos e eventos culturais.
De cara me pareceu mais um dessas invenções que servem para chocar e gerar espanto, já que carne refrigerada e livros não são a combinação mais evidente. O que me chamou a atenção de fato foi a trajetória de vida do idealizador do projeto, Luís. Quando menino, aos 12 anos, foi contratado pelo açougue e acabou morando por tempo nos fundos da loja. Foi alfabetizado somente aos 16 anos, e contou em seu depoimento como foi seu primeiro contato com os livros. Era um depoimento entusiasmado que muito lembrava o de João Ubaldo Ribeiro. Só foi ler seu primeiro livro aos 18 anos, um gibi de filosofia, não entendeu muito , mas achou interessante e dali em diante começou a ler compulsivamente livros de literatura e especialmente de filosofia, sua predileção.
Caberia investigar mais a vida de Luís para entender sua paixão pelos livros, mas a sua trajetória de vida, somada aos depoimentos de Graciliano e João Ubaldo, me fazem pensar que o gosto por ler e escrever não são fórmulas matemáticas, estão mais para receitas feitas por avós interioranas: sabemos que o fogão a lenha, que os anos de experiência e que as panelas de ferro são elementos importantes para o sucesso da recita, mas se perguntarmos o que exatamente vai ali, nem mesmo as cozinheiras saberão explicar.
Caberia investigar mais a vida de Luís para entender sua paixão pelos livros, mas a sua trajetória de vida, somada aos depoimentos de Graciliano e João Ubaldo, me fazem pensar que o gosto por ler e escrever não são fórmulas matemáticas, estão mais para receitas feitas por avós interioranas: sabemos que o fogão a lenha, que os anos de experiência e que as panelas de ferro são elementos importantes para o sucesso da recita, mas se perguntarmos o que exatamente vai ali, nem mesmo as cozinheiras saberão explicar.

Flávia, lindo comentário. Gostei muito de seu texto, especialmente quando você disse "o domínio da leitura, seja ele prazeroso ou sofrido, é um caminho sem volta que modifica a relação estabelecida com o mundo".
ResponderExcluirBeijo, Márcia.