“Quem escreve (quem pinta, esculpe, compõe música) sempre sabe o que está fazendo e quanto isso lhe custa. Sabe que deve resolver um problema. Pode acontecer que os dados iniciais sejam obscuros, pulsionais e obsessivos, não mais que uma vontade ou uma lembrança. Mas depois o problema resolve-se na escrivaninha, interrogando a matéria sobre a qual se trabalha – matéria que possui suas próprias leis naturais, mas que ao mesmo tempo traz consigo lembranças da cultura de que está embebida (o eco da intertextualidade).
Quando o autor nos diz que trabalhou no raptus da inspiração, está mentindo. Genius is twenty per cent inspiration and eighty per cent perspiration.
Não me recordo a propósito de que célebre poema de sua autoria Lamartine disse que lhe tinha nascido de um só jato, numa noite de tempestade, em um bosque. Quando morreu, foram encontrados os manuscritos com as correções e as variantes, descobrindo que aquele era talvez o poema mais ‘trabalhado’ de toda a literatura francesa.”
Umberto Eco
“Ler romances me parece uma atividade muito normal, mas escrevê-los é algo tão difícil de fazer...Pelo menos é o que penso, até me lembrar como as duas coisas estão firmemente relacionadas(...).
Primeiramente porque escrever é praticar, com especial intensidade e atenção, a arte de ler. Você escreve para ler o que escreveu, ver se está bom e, é claro, como nunca está, reescrever - uma vez, duas vezes, quantas vezes forem necessárias para que fique algo que você suporte reler. Você é seu primeiro leitor, e talvez o mais severo.
Embora isso, reescrever e reler, pareça um esforço, na verdade é a parte mais prazerosa da escrita. Às vezes a única parte prazerosa. Começar a escrever, quando se tem na cabeça a idéia de ‘literatura’, é formidável, desafiador. Um mergulho num lago gelado. Depois vem a parte quente: quando você já tem alguma coisa para aperfeiçoar, editar. (...)
Aquilo sobre o que escrevo está fora de mim . O que escrevo também é mais inteligente do que sou. Porque posso reescrevê-lo.” (...)
Susan Sontag, em texto publico no “The New York Times”, Mergulho num lago gelado.
“APRENDI que o ato de escrever é uma seqüela do ato de ler. É preciso captar com os olhos as imagens das letras, guardá-las no reservatório que temos em nossa mente e utilizá-las para compor depois as nossas próprias palavras.
APRENDI que, quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros. Não se incomodaram com isto. E copiar me fez muito bem.
APRENDI que, para aprender a escrever, tinha de escrever. Não adiantava só ficar falando de como é bonito” (...)
Moacyr Scliar em Vinte e uma coisas que aprendi como escritor
Qual a relação entre ler e escrever? Entre inspiração e revisão? O quanto do trabalho de criação vem da releitura e da tentativa de sair do papel de autor e se portar, por alguns momentos, como o leitor de seu próprio livro? Os trechos acima nos dão idéias do que pensam estes escritores. Gosto muito da idéia de Moacyr Scliar em encarar a leitura, para um escritor, como a formação de um “reservatório”, tanto de imagens como de palavras. Como se falássemos de um armário de recursos literários da qual ele se apropria e recria com suas palavras.
Tanto Moacyr Scliar como Susan Sontang apresentam a leitura e escrita como sendo uma conseqüência da outra, uma “sequela”. Susan se coloca como sua leitora mais severa, e é provável que seja, já que ela é única que tem o texto na cabeça, e, portanto já concretiza as imagens e sentimentos que deseja despertar no leitor
Não creio que seja o desejo do autor que seu livro seja interpretado exatamente como ele imaginou, o próprio Umberto Eco, diz do imenso prazer que tem em descobrir que seus leitores tiveram percepções distintas, afinal para ele o romance é uma “máquina de interpretações”, desde seu título até a última linha.
O trabalho de criação e revisão são, por Susan e Moacyr, comparados com o ato de esculpir, de extrair e lapidar daquele vasto reservatório de palavras aquelas que provoquem o efeito desejado. É por isso que a etapa dos manuscritos, dos esboços é tão importante, é o trabalho de revisão que dá voz a criação.
Para nós leitores, que recebemos o livro como um todo, as palavras parecem que sempre estiveram ali. Não lemos pensando “e se o autor tivesse colocado essa palavra no lugar dessa?”, lemos pensando se gostamos ou não, e buscando interpretar e mesmo críticar, mas a escolha não está mais em questão, e para o leitor, nunca esteve, é o ofício do autor.
Saber a hora que o romance está pronto e que aquelas são as palavras e frase que devem permanecer é o momento quente após mergulho no lago gelado figurado por Susan. É na releitura que o autor decidi que terminou, que enfim o livro ganhará uma vida que ele não mais controla.

Muito bom comentário, Flávia. Os trechos foram muito bem selecionados e seu comentário arrematando e comparando ficou ótimo. Adorei a citação do Eco.
ResponderExcluirBeijo, Márcia.