quinta-feira, 24 de junho de 2010

De dentro pra fora, ou de fora pra dentro?

De onde saem as linhas que formam os contos, os romances, as crônicos, os textos científicos, enfim tudo aquilo que vemos escrito por ai?
Não acredito que haja uma resposta que convença a todos. O ato de escrever será sempre objeto de muitas teorias e também de bastante misticismo.
Será uma inspiração? Seriam os escritores seres agraciados por Deus? Seria fruto de trabalho árduo e horas de concentração e transpiração? São muitas as perguntas e igualmente o número de respostas.
Além disso, criamos a idéia de que o escritor deve sofrer para ser bom, viver cada emoção com purismo, senti-la até não mais agüentar, para assim ser capaz de colocar em palavras utilizando-se de seu dom. Como se o ato de escrever fosse não um trabalho, mas sim uma dor, um parto.
Afinal, existe dom? Existe inspiração?
João Cabral de Melo Neto é bastante categórico em sua resposta quando é questionado sobre o desinteresse dos escritores brasileiros pela produção de textos teóricos:
Eu acho que é leviandade intelectual. O escritor brasileiro ainda acredita muito na inspiração, ele escreve por inspiração, acha que vai chegar num encontro daqueles e falar bem baseado no improviso, na inspiração, Eu não acredito nisso. (...) Para mim, poesia é uma construção, como uma casa. Isso eu aprendi com Le Carbusier. A poesia é uma composição. Quando digo composição, quero dizer uma coisa construída, planejada – de fora para dentro. (...)
Eu só entendo o poético neste sentido. Vou fazer uma poesia de tal extensão, com tais e tais elementos, coisas que vou colocando como se fossem tijolos. É por isso que eu posso gastar anos fazendo um poema; porque existe planejamento.(...)

Já para Raquel de Queiroz, escrever é uma gestação e o texto pronto só existe depois das dores do parto. A escritora acredita que é um bom escritor é sim dotado de um dom.
(...) para escrever, tem que haver o dom da escrita, tal como para cantar é preciso o dom da voz. Todos conhecemos pessoas inteligentes, até brilhantes em sua especialidade – medicina, arquitetura, engenharia, economia e, na verdade, por mais sabedores que sejam no seu ofício, não conseguem exprimir na palavra escrita essa sabedoria. (...)
Talvez a grande questão não seja se existe ou não dom, se existe ou não inspiração, e sim qual o sentido atribuído a essas palavras tão abertas as mais variadas interpretações.

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