quinta-feira, 27 de maio de 2010

Silêncio!

Em “Os Leitores silenciosos”, Alberto Manguel discorre sobre a transição do hábito da leitura em voz alta para a leitura silenciosa, retratando os costumes de leitura desde o século IV ao século XV. Manguel acena para as conseqüências de tal mudança, revelando os aspectos político-sociais imbricados em cada forma de leitura e ainda retrata as alterações na própria forma do texto, cujo intuito era favorecer a relação direta do leitor com o texto em detrimento à leitura em voz alta, que passava pela interpretação de seu orador.

Por meio da surpresa de Augustinho ao se deparar com o leitor silencioso Ambrosio, Manguel discute a forma de leitura (oral ou silenciosa) enquanto um fator social.
A leitura em voz alta era tida como usual até o século X, sendo que o primeiro relato de um leitor silencioso por convicção data o final século IV, quando Augustinho encontra o bispo Ambrósio lendo silenciosamente em sua cela.
Existia na época uma grande valorização da oratória, vinda desde Aristóteles, e no caso religioso da pregação. Os leitores ensaiavam seus textos e se preparavam para as leituras, que em geral se davam em espaços públicos ou ao menos acompanhadas por alguém. Ao ler o orador devia ser a voz do autor ausente, por tanto a leitora era destinada aqueles que estavam habituados e conheciam o ofício. Nas bibliotecas todos liam ao mesmo tempo sem se preocupar com o silêncio, tão valorizado atualmente em locais de estudos e leituras. Mesmo os escribas tinha seus textos ditados um ao lado do outro, sem que isso parecesse um problema.
Ler e falar eram quase sinônimos, o texto era uma conversa, um conjunto de sons que deveria ser desembaralhado com destreza por seu orador, conseqüentemente a forma de escrita do texto era pensada para ser lida em voz alta.
Os livros não eram separados em unidades fonéticas e nem possuíam marcas gráficas para representara pausas ou acentuações. A leitura era feita através de frases contínuas, muitos texto estavam em rolos sem pontuação ou distinção entre maiúsculas e minúsculas, nem mesmo a atual escrita da esquerda para direita era uma regra. Alguns textos eram escritos em colunas verticais, outros da direita para esquerda e alguns ainda variavam: cada linha em uma direção, comprovando, mais uma vez, que a forma de leitura, que parece tão natural, é em realidade resultado de aspectos culturais.
A leitura silenciosa representou uma mudança que ia além da forma de se ler, uma vez que o contato se dava sem diretamente com texto, sem intermediários, propiciava ao leitor novas interpretações e o espaço para reflexão, fugindo do controle dos habituais oradores.
O ato de ler ganhou novo espaço, saia do público e se tornava particular, invadia a casa dos leitores, ampliando o número de leitores. A leitura silenciosa permitia que ao longo do texto o leitor acessasse outros textos na memória ou mesmo através de consultas simultâneas.
A não necessidade da pronuncia de cada palavra dava outro ritmo a leitura e pedia novas marcas gráficas no texto. Aos poucos começou a separação por páginas com numeração, a divisão das palavras em frases, o início de uma pontuação ainda precária, que só ganhou aperfeiçoamentos depois do século VI e por fim a separação das palavras no século IX, quando começou a ser exigido também dos escribas o silêncio durante o trabalho.
Manguel levanta algumas frases comuns na fala atual que seriam hipóteses de resquícios da leitura em voz alta, como: “Fulano disse”, significando “fulano escreveu”, ou “Este texto não soa bem” quando se está dizendo “Este texto não está bem escrito”.
Foram várias as conseqüências apontadas pelo autor com normalização da leitura silenciosa. Para os mais dogmáticos o hábito de ler em silêncio pode levar a preguiça e ao ócio, no entanto, a maior conseqüência apontada pelo autor ocorreu no mundo cristão.
A leitura direta da bíblia, considerada um pecado para a Igreja, e também de outros livros gerou uma série de discursos heréticos que contradiziam muitos dogmas do catolicismo. Inicialmente a Igreja rejeitava tais discursos ou, em certos casos, incorporava-os com o objetivo de estabelecer um dogma comum.
Foi no século XVI que a Igreja levou seu maior golpe, quando teve seus dogmas e suas práticas contestadas pelo então monge Martinho Lutero, dando início a Reforma Protestante, que ainda incluiria Emerson e Calvino.
O autor encerra seu texto retomando o encontro entre Ambrósio e Augustinho e dizendo que o que parecia ser um ato solitário, anos depois se tornou o padrão de leitura.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O homen - livro

Quando comecei a ler o texto de Manguel, Os leitores silenciosos, logo me lembrei de um filme de François Truffaut: Fahrenheit 451. Embora os contextos tratados em cada texto se diferenciem em todos os aspectos, Manguel retrata a leitura na idade média e Truffaut cria um futuro hipotético como cenário, ambos discutem a importância e o poder dos livros e da leitura e discorrem sobre a o ato de ler em voz alta.
O texto de Manguel é cientifico e apresenta a transição entre a leitura em voz alta para a leitura silenciosa, ressaltando as várias implicações que tal mudança gerava, entre elas o poder da interpretação dado ao leitor quando o mesmo tinha um contato direto com o texto, sem interlocutores.
Fahrenheit 451, filmado por Truffaut e baseado no romance de Ray Bradbury, cujo título é o mesmo, se passa em um futuro em que os livros foram proibidos por um governo totalitarista que acredita que ler era dar asas aos devaneios da mente, da livre interpretação. Ler levava ao questionamento da realidade e por conseqüência a infelicidade e a improdutividade.
Nesta trama os bombeiros não são chamados para apagar incêndios, mas sim para criá-los quando encontram livros escondidos. O título, Fahrenheit 451 é uma referência ao grau de combustão do papel.
Nesse cenário o filme conta a história de um bombeiro que por uma série de circunstâncias acaba transgredindo as regras e se torna um leitor. Já no final do filme o expectador assiste a uma das cenas mais lindas, quando é uma mostrada uma comunidade em que as pessoas decoram os livros e os contam em voz alta, como um artifício de resistência. Assim como no texto de Manguel, os livros ganham vida e interpretação na fala de cada um e o exercício da oralidade passadó de geração em geração, como uma herança única e rara. Os títulos quando falados naturalmente se misturam as experiências de vida e, por conseqüência, as interpretações de seu orador. Não se trata apenas de livros em papel, são realmente homens-livro.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O valor do Livro (II)

Em o “Os Livros na Idade Média”, Jacques Verger apresenta o acesso ao livro e o processo de transição do manuscrito para a impressão na Idade Média. Por meio de um levantamento de dados o autor demonstra as dificuldades do acesso ao livro por conta do caro e lento processo de reprodução, além das escassas bibliotecas e com ingresso restrito. Verger ainda relata as mudanças desse cenário com o advento do livro impresso, mas faz a ressalva de que ainda que se tenha ampliando o acesso aos livros o processo foi lento.

Inicialmente o autor aponta os principais fatores de ordem social e econômica que inviabilizavam o amplo acesso aos livros na Idade Média. O alto custo da produção manuscrita de um livro se dava tanto por conta do longo tempo gasto, já que os livros eram produzidos artesanalmente por escribas,o que fazia com que a produção fosse em baixa escala, como pelo fato do preço exorbitante do suporte físico: pergaminho e o papel chiffon (sendo o segundo já uma opção mais barata).
Tais impedimentos de ordem econômica faziam que apenas os homens do saber (clérigos, monarcas e estudantes) tivessem acesso aos livros, uma vez que a aquisição era custosa e as poucas bibliotecas tinham um pequeno acervo com apenas alguns títulos e, na sua maioria, não erma abertas a todos. Além, disso, vale lembrar que quando falamos da Idade Média, como o próprio autor aponta, não existia uma obrigatoriedade por parte do Estado em promover a produção ou mesmo ao acesso aos livros.
A introdução da impressão nesse panorama, a partir do segundo terço do século XV , foi pouco sentida pelos homens de sua época e teve sua difusão bastante lenta em seu início, o que não represento um aumento considerável na produção. Existia resistência na troca dos belos manuscritos por livros impressos, por esses serem de baixa durabilidade, tampouco muitos títulos eram impressos e devido à questão da tradução a tiragem era ainda em baixa escala. Ainda assim, foi possível notar um alargamento do público leitor e consumidor de livros com o aparecimento de “bibliotecas mínimas”.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O valor do livro

Em o “Os Livros na Idade Média”, Jacques Verger apresenta o acesso ao livro e o processo de transição do manuscrito para o impresso na Idade Média. O interessante do texto é a demonstração da rica produção intelectual e do valor simbólico e econômico depositado nos livros em um período que, erroneamente e por razões diversas, ficou posteriormente conhecido como “Idade das Trevas”. Por meio de um extenuante levantamento de dados o autor sustenta o argumento da riqueza encontrada nas bibliotecas da época, mesmo com situações adversas, como as dificuldades de reprodução de um livro tanto em função do tempo gasto como do preço exorbitante do suporte físico. Além, disso, vale lembrar que quando falamos da Idade Média, como o próprio autor aponta, não existia uma obrigatoriedade por parte do Estado em promover a produção ou mesmo o acesso aos livros, tais atribuições eram destinas à esfera privada, Instituições de ensino (Universidades e colégios, em sua maioria pertencente à Igreja) e bibliotecas particulares, ou seja, a leitura era restrita a determinadas classes e a algumas ocupações sociais. Jacques Verger ainda relata as mudanças desse cenário com o advento do livro impresso, mas faz a ressalva de que ainda que se tenha ampliando o acesso aos livros foi um processo lento. Muito do valor econômico do livro se perdeu com a impressão, no entanto o valor de erudição é até hoje associado ao habito da leitura.

Ser e escrever

“O senhor me pergunta se seus versos são bons. Pergunta isso a mim. Já perguntou a mesma coisa a outras pessoas antes. Envia seus versos para revistas. Faz comparações entre eles e outros poemas e se inquieta quando um ou outro recusa suas tentativas de publicação. Agora (como me deu licença para aconselhá-lo) lhe peço para desistir disso tudo. O senhor olha para fora, e é isso sobretudo o que não deveria fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele entende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isso: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profundo. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples “Preciso”, então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso.” (p.24,25)

O poeta Rainer Maria Rilke, ao ser indagado por jovem aspirante a poeta a respeito do que era necessário para se tornar um escritor, não lhe responde com dicas de técnicas literárias ao com métodos de trabalho, a resposta para ele está na pessoa, na necessidade quase divina de se escrever que deve, assim, moldar a vida. Ser escritor para o poeta beira uma categoria biológica determinada pelo nascimento. A escrita não é para ele um ofício que se escolhe, é uma forma de vida que escolhe seus adeptos.
O que vemos nas palavras de Rilke, quando comparamos com outros relatos de escritores, é que o ofício do escritor, assim como todos os outros, é carregado de atribuições simbólicas que variam de acordo com os contextos históricos em que cada escritor está inserido.
Não é a toa que quando lemos Rilke não encontramos nada parecido com um manual de redação, o que temos é quase um livro de auto-ajuda, maneiras de se conduzir a vida, o autor e o texto se fundem em uma só coisa. Para o poeta tudo que está no texto deve ser do autor, já que vida é pautada pela necessidade de escrever.
Hoje ainda encontramos esse tipo de fala, que atribui a escrita a um processo doloroso, quase um parto. Ainda que a idéia de inspiração venha sido somada ao trabalho de horas em frente ao texto, a concepção do sofrimento e da tormenta do ato de escrever como valor ou mérito de um texto é bastante usual e difundida. Como se bons escritores não pudessem ser felizes e falarem de coisas tristes.
Não acredito que Rilke não tenha de fato transformado sua vida em função dessa necessidade de escrever descrita por ele, e tão pouco deixo de acreditar que atualmente não existam escritores que, com base no domínio do método, sigam a riscas manuais de como escrever e acreditem piamente que este é caminho. Cada época forma seus próprios escritores.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Entre mergulhar e debruçar na escrivaninha

“Quem escreve (quem pinta, esculpe, compõe música) sempre sabe o que está fazendo e quanto isso lhe custa. Sabe que deve resolver um problema. Pode acontecer que os dados iniciais sejam obscuros, pulsionais e obsessivos, não mais que uma vontade ou uma lembrança. Mas depois o problema resolve-se na escrivaninha, interrogando a matéria sobre a qual se trabalha – matéria que possui suas próprias leis naturais, mas que ao mesmo tempo traz consigo lembranças da cultura de que está embebida (o eco da intertextualidade).

Quando o autor nos diz que trabalhou no raptus da inspiração, está mentindo. Genius is twenty per cent inspiration and eighty per cent perspiration.

Não me recordo a propósito de que célebre poema de sua autoria Lamartine disse que lhe tinha nascido de um só jato, numa noite de tempestade, em um bosque. Quando morreu, foram encontrados os manuscritos com as correções e as variantes, descobrindo que aquele era talvez o poema mais ‘trabalhado’ de toda a literatura francesa.”

Umberto Eco em Pós- Escrito a O Nome da Rosa

“Ler romances me parece uma atividade muito normal, mas escrevê-los é algo tão difícil de fazer...Pelo menos é o que penso, até me lembrar como as duas coisas estão firmemente relacionadas(...).

Primeiramente porque escrever é praticar, com especial intensidade e atenção, a arte de ler. Você escreve para ler o que escreveu, ver se está bom e, é claro, como nunca está, reescrever - uma vez, duas vezes, quantas vezes forem necessárias para que fique algo que você suporte reler. Você é seu primeiro leitor, e talvez o mais severo.

Embora isso, reescrever e reler, pareça um esforço, na verdade é a parte mais prazerosa da escrita. Às vezes a única parte prazerosa. Começar a escrever, quando se tem na cabeça a idéia de ‘literatura’, é formidável, desafiador. Um mergulho num lago gelado. Depois vem a parte quente: quando você já tem alguma coisa para aperfeiçoar, editar. (...)

Aquilo sobre o que escrevo está fora de mim . O que escrevo também é mais inteligente do que sou. Porque posso reescrevê-lo.” (...)

Susan Sontag, em texto publico no “The New York Times”, Mergulho num lago gelado.

“APRENDI que o ato de escrever é uma seqüela do ato de ler. É preciso captar com os olhos as imagens das letras, guardá-las no reservatório que temos em nossa mente e utilizá-las para compor depois as nossas próprias palavras.
APRENDI que, quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros. Não se incomodaram com isto. E copiar me fez muito bem.

APRENDI que, para aprender a escrever, tinha de escrever. Não adiantava só ficar falando de como é bonito” (...)

Moacyr Scliar em Vinte e uma coisas que aprendi como escritor

Qual a relação entre ler e escrever? Entre inspiração e revisão? O quanto do trabalho de criação vem da releitura e da tentativa de sair do papel de autor e se portar, por alguns momentos, como o leitor de seu próprio livro? Os trechos acima nos dão idéias do que pensam estes escritores. Gosto muito da idéia de Moacyr Scliar em encarar a leitura, para um escritor, como a formação de um “reservatório”, tanto de imagens como de palavras. Como se falássemos de um armário de recursos literários da qual ele se apropria e recria com suas palavras.

Tanto Moacyr Scliar como Susan Sontang apresentam a leitura e escrita como sendo uma conseqüência da outra, uma “sequela”. Susan se coloca como sua leitora mais severa, e é provável que seja, já que ela é única que tem o texto na cabeça, e, portanto já concretiza as imagens e sentimentos que deseja despertar no leitor

Não creio que seja o desejo do autor que seu livro seja interpretado exatamente como ele imaginou, o próprio Umberto Eco, diz do imenso prazer que tem em descobrir que seus leitores tiveram percepções distintas, afinal para ele o romance é uma “máquina de interpretações”, desde seu título até a última linha.

O trabalho de criação e revisão são, por Susan e Moacyr, comparados com o ato de esculpir, de extrair e lapidar daquele vasto reservatório de palavras aquelas que provoquem o efeito desejado. É por isso que a etapa dos manuscritos, dos esboços é tão importante, é o trabalho de revisão que dá voz a criação.

Para nós leitores, que recebemos o livro como um todo, as palavras parecem que sempre estiveram ali. Não lemos pensando “e se o autor tivesse colocado essa palavra no lugar dessa?”, lemos pensando se gostamos ou não, e buscando interpretar e mesmo críticar, mas a escolha não está mais em questão, e para o leitor, nunca esteve, é o ofício do autor.

Saber a hora que o romance está pronto e que aquelas são as palavras e frase que devem permanecer é o momento quente após mergulho no lago gelado figurado por Susan. É na releitura que o autor decidi que terminou, que enfim o livro ganhará uma vida que ele não mais controla.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Dos segredos

Na sexta feira aproveitei a tarde livre e a escapada mais cedo do trabalho do meu namorado para tentar minimamente atualizar a lista de milhões de filmes que quero assistir e que, por outras milhões de razões, acabo não assistindo.
Fomos ver O segredo de seus olhos (El secreto de sus ojos, 2009), filme argentino ganhador do Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro.
Gosto muito do pouco que conheço do cinema argentino e entre meus filmes preferidos, não apenas portenhos, está O filho da noiva do mesmo diretor e roteirista, Juan José Campanella, o que me levou a chegar ao cinema com grandes expectativas.
O que eu esperava, e tanto adoro, encontrei no filme: uma mistura de um humor bastantes irônico e tipicamente argentino, com reflexões densas sobre a vida e suas escolhas. O roteiro é excelente e as cenas são extremamente sensíveis e logo se nota a preocupação com os mínimos detalhes por parte do diretor. É um filme harmônico. Comédia, drama, romance e suspense com a precisão necessária o tornam muito envolvente e humano, alem da atuação, sempre ótima, de Ricardo Darín.
É bem verdade que nos momentos finais senti alguns desfechos um pouco atropelados enquanto outros pareciam se arrastar, mas nada que comprometa, nem minimamente, a qualidade do espetáculo.
O filme narra a história de Benjamín Espósito, um funcionário público recém aposentado que busca, por meio da escrita de um romance policial, baseado em caso que ele mesmo investigou 25 anos antes, encontrar e compreender o sentido de sua própria vida. Aqui o processo de criação literária está em segundo plano, já que o autor do livro, na verdade, não discute em nenhum momento as dificuldades para se escrever ou seus métodos de trabalho. O uso da narrativa literária por parte do personagem é na verdade um grande desabafo, beirando a escrita de um diário, ou de um “memorando”, termo utilizado no próprio filme, uso esse bastante comum por escritores amadores, que encontram na redação de livros espaço para realizarem certo revisionismos de suas biografias e também expressarem sentimentos que só se fazem entender quando colocados no papel. Quem nunca escreveu para espantar seus medos?
Sem dúvidas o filme é ótimo, mas o melhor não estava na tela, e sim a duas poltronas da minha: eram os comentários extremamente graciosos de duas senhoras já para lá da terceira idade que completavam e ressignificavam o sentido do filme, reforçando a qualidade do que passava na telona.
Não sei se por surdez ou meramente por acharem, corretamente, que a certa altura da vida tudo é permitido e que vergonha e embaraço são problemas dos mais novos, as duas simpáticas senhoras comentavam em voz alta (bastante alta) cena a cena do filme.
Não cabia a mim reclamar, até porque eu estava bem me divertindo e além disso, o que fazia eu numa sessão em plena tarde de sexta?!
Alguns comentários eram para evitar confusões, já que às vezes as duas acabavam misturando os personagens e as cenas que ocorriam no presente e no passado da trama. Contudo, a maior parte deles eram respostas antecipadas aos diálogos ou pequenas reflexões sobre a vida e as relações humanas.
Quando Benjamín se questiona sobre como é possível viver uma vida cheia de “nada”, a senhora logo respondeu pensativa e com certa melancolia “é... é difícil”, e a outra rapidamente concordou. Melhor ainda era quando os personagens faziam piadas sobre envelhecer, como quando disseram que Benjamim e a velha máquina escrever da repartição se entenderiam porque ambos eram “dois dinossauros”. Era só gargalhada nas poltronas ao lado! Riam e cutucavam, repetindo a piada em voz alta! Risada boa, engraçada e cheia de vida.
O filme falava delas, da vida que passa e que está longe de ser cheia “de nada”. O que se pode mudar e o que realmente já foi, passou?Aquilo que pode no máximo ser colocado em algumas linhas de um livro-memorando, para que se possa ler reler, achar graça e tentar encontrar o melhor final, dentre aqueles que a própria narrativa da vida nos impõe. Eu estava no horário da sessão errada, ou não, mas certa de que faltava muito para que eu realmente pudesse entender o filme.