quinta-feira, 24 de junho de 2010

Era uma vez...

Não saberia dizer o que era a leitura para mim quando criança. Cresci cercada por livros espalhados pela casa e nas estantes do escritório Minha mãe lia para mim antes de dormir, me lembro bem do Sítio do Pica Pau Amarelo, de pedir que ela lesse mais um capítulo, pois estava morta e curiosidade, algumas vezes ela cedia depois de contar quantas páginas havia no outro capítulo. A coleção do Monteiro Lobato me encantava, mas eu não lia sozinha, pois como estava em fase de alfabetização podia me confundir com a grafia antiga. Eu gostava de ver as palavras na grafia antiga e ficava perguntando por que tinha mudando e que decidia essas coisas. A resposta era sempre longa e minha imaginação acabava se perdendo em algum momento.
Sempre gostei que lessem para mim, até hoje gosto de ouvir história, de imaginar a próxima palavra ou acontecimento.
Tínhamos muitos livros infantis, eu tinha os meus e também os herdados da minha irmã mais velha. O incentivo a leitura era constante, todas as férias separávamos alguns livros para leva na viagem, para ler antes de dormir.
Quando adolescente não queria mais saber de ler, talvez fosse esse meu ato de revolta, de ser diferente em uma família de leitores.
Aos pouco os livros voltaram ao criado-mudo e agora começo minha própria pequena biblioteca.

Como escrevo

Sempre tenho uma enorme preguiça de começar a escrever, porque sei que depois que começo terei que ir até o final. Raramente começo um texto, uma resposta da faculdade e paro no meio para retomar mais tarde. Uma vez começado vou até pelo menos algum momento que me dê à sensação de fim, ainda que seja apenas o final de uma parte ou capítulo.
Enquanto escrevo faço muitas pausas, algumas longas para um café, um lanchinho, uma ida ao banheiro. Então voltou, releio, mudo algumas coisas. Uma hora paro de reler, porque começo a ter a sensação de que está tudo errado, que deveria ter colocado outras idéias, que a ordem do texto não era aquela que eu havia inicialmente imaginado, que o sentido se perdeu, que está cheio de erros e assim por diante. Normalmente dou para alguém ler e peço que faça correções.
Quando era pequena levava tudo para minha avó ler. Ela fazia suas correções a lápis, especialmente ortográficas e sempre me elogiava. Hoje costumo pedir ajuda à minha irmã e também ao meu namorado (meu leitor mais fiel).
Em geral tenho uma idéia que penso ser ótima sempre antes de dormir quando não tenho nenhuma caneta por perto, no dia seguinte esqueço tudo e assim unto com a preguiça e vou enrolando para começar Espero os prazos de entrega irem chegando, então me desespero e acabo sentado para escrever. No começo vai devagar, mas uma hora engrena e algumas frases que eu havia pensado parecem reaparecer na cabeça, como um antigo carro a álcool que precisa esquentar para andar.

De dentro pra fora, ou de fora pra dentro?

De onde saem as linhas que formam os contos, os romances, as crônicos, os textos científicos, enfim tudo aquilo que vemos escrito por ai?
Não acredito que haja uma resposta que convença a todos. O ato de escrever será sempre objeto de muitas teorias e também de bastante misticismo.
Será uma inspiração? Seriam os escritores seres agraciados por Deus? Seria fruto de trabalho árduo e horas de concentração e transpiração? São muitas as perguntas e igualmente o número de respostas.
Além disso, criamos a idéia de que o escritor deve sofrer para ser bom, viver cada emoção com purismo, senti-la até não mais agüentar, para assim ser capaz de colocar em palavras utilizando-se de seu dom. Como se o ato de escrever fosse não um trabalho, mas sim uma dor, um parto.
Afinal, existe dom? Existe inspiração?
João Cabral de Melo Neto é bastante categórico em sua resposta quando é questionado sobre o desinteresse dos escritores brasileiros pela produção de textos teóricos:
Eu acho que é leviandade intelectual. O escritor brasileiro ainda acredita muito na inspiração, ele escreve por inspiração, acha que vai chegar num encontro daqueles e falar bem baseado no improviso, na inspiração, Eu não acredito nisso. (...) Para mim, poesia é uma construção, como uma casa. Isso eu aprendi com Le Carbusier. A poesia é uma composição. Quando digo composição, quero dizer uma coisa construída, planejada – de fora para dentro. (...)
Eu só entendo o poético neste sentido. Vou fazer uma poesia de tal extensão, com tais e tais elementos, coisas que vou colocando como se fossem tijolos. É por isso que eu posso gastar anos fazendo um poema; porque existe planejamento.(...)

Já para Raquel de Queiroz, escrever é uma gestação e o texto pronto só existe depois das dores do parto. A escritora acredita que é um bom escritor é sim dotado de um dom.
(...) para escrever, tem que haver o dom da escrita, tal como para cantar é preciso o dom da voz. Todos conhecemos pessoas inteligentes, até brilhantes em sua especialidade – medicina, arquitetura, engenharia, economia e, na verdade, por mais sabedores que sejam no seu ofício, não conseguem exprimir na palavra escrita essa sabedoria. (...)
Talvez a grande questão não seja se existe ou não dom, se existe ou não inspiração, e sim qual o sentido atribuído a essas palavras tão abertas as mais variadas interpretações.

Discutindo o hipertexto

Hoje em dia, vivemos em uma sociedade em que a tecnologia está cada vez mais presente. Com a chegada do hipertexto, como podemos usufruir da melhor maneira possível de suas ferramentas, afim de aumentar o conhecimento/informação sobre o assunto abordado?
(pergunta da Bárbara)

A cada mudança no processo de leitura inúmeras teorias surgem apontando as maravilhas e também os malefícios que virão pela frente. E, de modo geral, sempre as novas trazem tecnologia carregam boas e más conseqüências, muitas vezes nem são aquelas que haviam sido anteriormente apontadas.
O medo do novo e inteiramente justificável, ainda mais quando tratamos de algo como a internet que, seja para bem ou para mal, é uma ferramenta atualmente sem controle. O hipertexto é hoje uma realidade e não cabe mais discutir se deve ou não existir, a discussão é agora sobre seus usos.
Por mais receios que possamos ter, o hipertexto democratizou muitas informações permitiu que através de pesquisas rápidas se encontrassem informações antes bastante restritas.
A meu ver, enquanto ferramenta de pesquisa e também como instrumento para mapeamento do que existe disponível na rede, é algo fantástico que pode facilitar e ampliar o acesso ao conhecimento.

As etapas da escrita - resposta

Após o conhecimento e a reflexão sobre o processo cognitivo da escrita, quais são os benefícios deste estudo na prática da escrita?
(Pergunta da Renata)

Quando elaboramos teorias e esquemas sobre o ato, procurando compreender as etapas e os processos cognitivos envolvidos, tonamos consciente algo que muitas vezes nos parece um impulso de criação ou, quando estamos com dificuldades para desenvolver um texto, um suplício.
Conhecer os mecanismos da escrita pode nos auxiliar nos nossos próprios processos de escrita. Entender que partimos de um problema retórico e ser capaz de identificá-lo faz com que o texto não perca o foco e a acabe por não cumprir seu objetivo.
Saber acessar a memória de longo prazo é também um recurso enriquecedor, que possibilita comparações e relações com outros textos ou mesmo com situações vivenciadas pelo autor.
A consciência de que existente etapas e que em cada uma delas se utiliza certos recursos cognitivos ajuda a desmitificar o ato de escreve.

Reflexão

Ao conceber a atividade da leitura como sendo um diálogo que se estabelece entre o leitor e o autor através do texto, nos deparamos com uma pluralidade da leituras. Em sua opinião, quais os pontos positivos e negativos desse fato para o ensino da leitura? Ao conceber a atividade da leitura como sendo um diálogo que se estabelece entre o leitor e o autor através do texto, nos deparamos com uma pluralidade de leituras. Em sua opinião, quais os pontos positivos e negativos desse fato para o ensino da leitura?
(Pergunta da Flávia)


A compreensão do processo de leitura e dos sentidos presentes no texto é objeto de estudos há certo tempo e seu enfoque já variou entre autor, texto e leitor. Ao entendermos esse processo como um diálogo, em que consideramos a presença das três variantes, nos deparamos com uma possibilidade vasta de interpretações de um mesmo texto. O fim de um pensamento que determina a existência de uma única leitura “certa” do texto.
Conceber múltiplas interpretações ao texto é um ganho no ensino da leitura. O texto em si determina parte da interpretação, o conhecimento do autor e seu contexto também auxilia na compreensão dos sentidos e a vivencia do leitor, no caso o alunos, é igualmente fundamental nesse processo.
As várias interpretações engrandecem as discussões sobre um determinado texto. Qual era o objetivo do autor com o texto? Em sua opinião, o que o texto diz, desconsiderando seu conhecimento prévio sobre o autor? Sem saber nada do contexto em que esse texto foi escrito, qual sua interpretação?
Essas são exemplos de questões que podem ser feito aos alunos, enriquecendo seu conhecimento do texto e considerando suas experiências no sentido do texto.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A resposta

Hoje vivenciamos uma cultura digital que impõe novos ritmos de aprendizagem e conhecimento. Somos bombardeados com informações a todo momento e num ritmo frenético. Remetendo-se ao texto estudado, fica uma pergunta para reflexão: a passagem da leitura oral para a leitura silenciosa, nos trouxe diversas mudanças positivas. No entanto, a oratória que tanto era valorizada,quase foi extinta, ficando hoje restrita apenas a discursos políticos,saraus, ou cursos específico. Será que talvez não precisamos resgatar um pouco dessa tradição, em que o conhecimento era compartilhado com todos?
(Perganta da Elis)

É sempre uma sensação um pouco estranha quando descobrimos que algo que nos é tão natural, como a leitura em voz baixa, é na verdade conseqüência de um longo processo histórico e de mudanças culturais e sociais.
É comum, e por vezes vital, naturalizarmos nossos habitados acreditando que sempre foi e sempre será assim. Afinal se passarmos a vida questionando tudo acabaríamos apenas com incertezas, pois nossa conclusão seria que tudo é cultural, decorrente de uma sucessão de fatos e transformações. Ao olharmos para trás, para séculos de história documentada, conseguimos perceber tais mudanças, nesse caso d leitura em voz alta para a leitura silenciosa, mas será que aqueles que viveram na época em que teve início tal processo de transformação eram capazes de perceber que estavam diante de algo tão significativo?
O que o texto de Manguel nos diz é que não. Augustinho ao se depara com Ambrósio pensou ver uma exceção, o que para época estava plenamente correto, mas não lhe passou pela cabeça que estaria diante do futuro da leitura.
Embora seja assustador e cheio de incertezas o olhar para o passado também nos mostrar que é possível mudar, que os padrões sociais podem e serão alterados, por isso cabe a nós sermos agentes ativos de nossa história através da consciência dela e de reflexões como esta proposta pela Elis.
O texto de Manguel exalta os benefícios e as transformações que a leitura silenciosa originou, porém pouco diz sobre as conseqüências negativas que o fim da leitura em voz alta possa ter.
A leitura em voz alta é uma formar de compartilhar conhecimento e também e de escutar a visão do outro sobre um texto, ampliando as maneiras de compreender e interpretar os textos. Além disso, quando se lê para uma criança, por exemplo, se estabelece um laço afetivo, um companheirismo interessante de ser resgatado num mundo atual que está bastante egocêntrico.
Acredito que as duas formas de leitura não deveriam ser excludentes e sim complementares, possibilitando aos leitores tanto o compartilhamento e o exercício da leitura coletiva, como também a autonomia e contato direto com o texto sem intermediários.

Respondendo

Leia o trecho abaixo, retirado do texto "Práticas de Escrita":"
escrever é uma prática social, isto é, resulta do desenvolvimento de uma tecnologia específica, de um conhecimento longamente assimilado durante anos de formação, o qual terá funções diferentes em épocas e lugares distintos, participando de inúmeras maneiras da dinâmica da sociedade".
Explique a prática social da escrita assim compreendida a partir de um exemplo, demonstrando como essa afirmação é verdadeira.
(Pergunta da Fernanda)

A afirmação acima demonstra a relação indissociável entre a prática da escrita e as dinâmicas sociais na qual ela está iinserida. Como revela o próprio texto, as transformações na maneira de se conceber a escrita não surgem desconectadas de necessidades sociais e econômicas. Com o desenvolvimento do comercio na Mesopotâmia, por gráficas que resolvam tal problema.
Ao longo da história essas necessidades e ambições vão se transformando, tecendo, assim, novos horizontes para os usos e as técnicas empregadas na prática da escrita, o que nos mostra que escrever não é apenas um aperfeiçoamento técnico situado em uma escala evolutiva que linear comum a todos os povos. Escrever é uma representação de mundo e uma ferramenta interpretativa de um universo de referências, portanto o que pode parecer primitivo para um povo para outro atende perfeitamente as suas necessidades.
Além disso, a representação (desenho) propriamente dita da escrita é também uma forma de identidade da sociedade, já que nela também estão presentes todo um universo de referencias próprio de cada povo. . O simples fato de hoje o alfabeto romano estar tão difundido e ser utilizado em diversos países revela uma aproximação no decorrer da história entre os povos, uma maior comunicação entre eles e a necessidade de utilizar uma forma de escrita capaz de se adequar as várias e cada vez mais velozes transformações sociais A combinação das letras no alfabeto romano proporciona a formação de infinitas palavras, o que para a sociedade atual, repleta de descobertas e incorporação de palavras estrangeiras a todo o momento, é um recurso fundamental para saciar essa demanda.
Escrever é sem dúvidas uma prática social.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Perguntas

Manguel, em seu texto, mostra como o padrão da leitura silenciosa, bem como a escrita da esquerda para direita, são aspectos culturais desenvolvidos ao longo dos séculos.

1. Discuta de que maneira esse padrão transformou nossa concepção de texto e de leitura.

2. Levante hipóteses sobre a relação entre o atual padrão de leitura e a forma como os livros são apresentados hoje às crianças antes e depois da alfabetização.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Silêncio!

Em “Os Leitores silenciosos”, Alberto Manguel discorre sobre a transição do hábito da leitura em voz alta para a leitura silenciosa, retratando os costumes de leitura desde o século IV ao século XV. Manguel acena para as conseqüências de tal mudança, revelando os aspectos político-sociais imbricados em cada forma de leitura e ainda retrata as alterações na própria forma do texto, cujo intuito era favorecer a relação direta do leitor com o texto em detrimento à leitura em voz alta, que passava pela interpretação de seu orador.

Por meio da surpresa de Augustinho ao se deparar com o leitor silencioso Ambrosio, Manguel discute a forma de leitura (oral ou silenciosa) enquanto um fator social.
A leitura em voz alta era tida como usual até o século X, sendo que o primeiro relato de um leitor silencioso por convicção data o final século IV, quando Augustinho encontra o bispo Ambrósio lendo silenciosamente em sua cela.
Existia na época uma grande valorização da oratória, vinda desde Aristóteles, e no caso religioso da pregação. Os leitores ensaiavam seus textos e se preparavam para as leituras, que em geral se davam em espaços públicos ou ao menos acompanhadas por alguém. Ao ler o orador devia ser a voz do autor ausente, por tanto a leitora era destinada aqueles que estavam habituados e conheciam o ofício. Nas bibliotecas todos liam ao mesmo tempo sem se preocupar com o silêncio, tão valorizado atualmente em locais de estudos e leituras. Mesmo os escribas tinha seus textos ditados um ao lado do outro, sem que isso parecesse um problema.
Ler e falar eram quase sinônimos, o texto era uma conversa, um conjunto de sons que deveria ser desembaralhado com destreza por seu orador, conseqüentemente a forma de escrita do texto era pensada para ser lida em voz alta.
Os livros não eram separados em unidades fonéticas e nem possuíam marcas gráficas para representara pausas ou acentuações. A leitura era feita através de frases contínuas, muitos texto estavam em rolos sem pontuação ou distinção entre maiúsculas e minúsculas, nem mesmo a atual escrita da esquerda para direita era uma regra. Alguns textos eram escritos em colunas verticais, outros da direita para esquerda e alguns ainda variavam: cada linha em uma direção, comprovando, mais uma vez, que a forma de leitura, que parece tão natural, é em realidade resultado de aspectos culturais.
A leitura silenciosa representou uma mudança que ia além da forma de se ler, uma vez que o contato se dava sem diretamente com texto, sem intermediários, propiciava ao leitor novas interpretações e o espaço para reflexão, fugindo do controle dos habituais oradores.
O ato de ler ganhou novo espaço, saia do público e se tornava particular, invadia a casa dos leitores, ampliando o número de leitores. A leitura silenciosa permitia que ao longo do texto o leitor acessasse outros textos na memória ou mesmo através de consultas simultâneas.
A não necessidade da pronuncia de cada palavra dava outro ritmo a leitura e pedia novas marcas gráficas no texto. Aos poucos começou a separação por páginas com numeração, a divisão das palavras em frases, o início de uma pontuação ainda precária, que só ganhou aperfeiçoamentos depois do século VI e por fim a separação das palavras no século IX, quando começou a ser exigido também dos escribas o silêncio durante o trabalho.
Manguel levanta algumas frases comuns na fala atual que seriam hipóteses de resquícios da leitura em voz alta, como: “Fulano disse”, significando “fulano escreveu”, ou “Este texto não soa bem” quando se está dizendo “Este texto não está bem escrito”.
Foram várias as conseqüências apontadas pelo autor com normalização da leitura silenciosa. Para os mais dogmáticos o hábito de ler em silêncio pode levar a preguiça e ao ócio, no entanto, a maior conseqüência apontada pelo autor ocorreu no mundo cristão.
A leitura direta da bíblia, considerada um pecado para a Igreja, e também de outros livros gerou uma série de discursos heréticos que contradiziam muitos dogmas do catolicismo. Inicialmente a Igreja rejeitava tais discursos ou, em certos casos, incorporava-os com o objetivo de estabelecer um dogma comum.
Foi no século XVI que a Igreja levou seu maior golpe, quando teve seus dogmas e suas práticas contestadas pelo então monge Martinho Lutero, dando início a Reforma Protestante, que ainda incluiria Emerson e Calvino.
O autor encerra seu texto retomando o encontro entre Ambrósio e Augustinho e dizendo que o que parecia ser um ato solitário, anos depois se tornou o padrão de leitura.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O homen - livro

Quando comecei a ler o texto de Manguel, Os leitores silenciosos, logo me lembrei de um filme de François Truffaut: Fahrenheit 451. Embora os contextos tratados em cada texto se diferenciem em todos os aspectos, Manguel retrata a leitura na idade média e Truffaut cria um futuro hipotético como cenário, ambos discutem a importância e o poder dos livros e da leitura e discorrem sobre a o ato de ler em voz alta.
O texto de Manguel é cientifico e apresenta a transição entre a leitura em voz alta para a leitura silenciosa, ressaltando as várias implicações que tal mudança gerava, entre elas o poder da interpretação dado ao leitor quando o mesmo tinha um contato direto com o texto, sem interlocutores.
Fahrenheit 451, filmado por Truffaut e baseado no romance de Ray Bradbury, cujo título é o mesmo, se passa em um futuro em que os livros foram proibidos por um governo totalitarista que acredita que ler era dar asas aos devaneios da mente, da livre interpretação. Ler levava ao questionamento da realidade e por conseqüência a infelicidade e a improdutividade.
Nesta trama os bombeiros não são chamados para apagar incêndios, mas sim para criá-los quando encontram livros escondidos. O título, Fahrenheit 451 é uma referência ao grau de combustão do papel.
Nesse cenário o filme conta a história de um bombeiro que por uma série de circunstâncias acaba transgredindo as regras e se torna um leitor. Já no final do filme o expectador assiste a uma das cenas mais lindas, quando é uma mostrada uma comunidade em que as pessoas decoram os livros e os contam em voz alta, como um artifício de resistência. Assim como no texto de Manguel, os livros ganham vida e interpretação na fala de cada um e o exercício da oralidade passadó de geração em geração, como uma herança única e rara. Os títulos quando falados naturalmente se misturam as experiências de vida e, por conseqüência, as interpretações de seu orador. Não se trata apenas de livros em papel, são realmente homens-livro.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O valor do Livro (II)

Em o “Os Livros na Idade Média”, Jacques Verger apresenta o acesso ao livro e o processo de transição do manuscrito para a impressão na Idade Média. Por meio de um levantamento de dados o autor demonstra as dificuldades do acesso ao livro por conta do caro e lento processo de reprodução, além das escassas bibliotecas e com ingresso restrito. Verger ainda relata as mudanças desse cenário com o advento do livro impresso, mas faz a ressalva de que ainda que se tenha ampliando o acesso aos livros o processo foi lento.

Inicialmente o autor aponta os principais fatores de ordem social e econômica que inviabilizavam o amplo acesso aos livros na Idade Média. O alto custo da produção manuscrita de um livro se dava tanto por conta do longo tempo gasto, já que os livros eram produzidos artesanalmente por escribas,o que fazia com que a produção fosse em baixa escala, como pelo fato do preço exorbitante do suporte físico: pergaminho e o papel chiffon (sendo o segundo já uma opção mais barata).
Tais impedimentos de ordem econômica faziam que apenas os homens do saber (clérigos, monarcas e estudantes) tivessem acesso aos livros, uma vez que a aquisição era custosa e as poucas bibliotecas tinham um pequeno acervo com apenas alguns títulos e, na sua maioria, não erma abertas a todos. Além, disso, vale lembrar que quando falamos da Idade Média, como o próprio autor aponta, não existia uma obrigatoriedade por parte do Estado em promover a produção ou mesmo ao acesso aos livros.
A introdução da impressão nesse panorama, a partir do segundo terço do século XV , foi pouco sentida pelos homens de sua época e teve sua difusão bastante lenta em seu início, o que não represento um aumento considerável na produção. Existia resistência na troca dos belos manuscritos por livros impressos, por esses serem de baixa durabilidade, tampouco muitos títulos eram impressos e devido à questão da tradução a tiragem era ainda em baixa escala. Ainda assim, foi possível notar um alargamento do público leitor e consumidor de livros com o aparecimento de “bibliotecas mínimas”.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O valor do livro

Em o “Os Livros na Idade Média”, Jacques Verger apresenta o acesso ao livro e o processo de transição do manuscrito para o impresso na Idade Média. O interessante do texto é a demonstração da rica produção intelectual e do valor simbólico e econômico depositado nos livros em um período que, erroneamente e por razões diversas, ficou posteriormente conhecido como “Idade das Trevas”. Por meio de um extenuante levantamento de dados o autor sustenta o argumento da riqueza encontrada nas bibliotecas da época, mesmo com situações adversas, como as dificuldades de reprodução de um livro tanto em função do tempo gasto como do preço exorbitante do suporte físico. Além, disso, vale lembrar que quando falamos da Idade Média, como o próprio autor aponta, não existia uma obrigatoriedade por parte do Estado em promover a produção ou mesmo o acesso aos livros, tais atribuições eram destinas à esfera privada, Instituições de ensino (Universidades e colégios, em sua maioria pertencente à Igreja) e bibliotecas particulares, ou seja, a leitura era restrita a determinadas classes e a algumas ocupações sociais. Jacques Verger ainda relata as mudanças desse cenário com o advento do livro impresso, mas faz a ressalva de que ainda que se tenha ampliando o acesso aos livros foi um processo lento. Muito do valor econômico do livro se perdeu com a impressão, no entanto o valor de erudição é até hoje associado ao habito da leitura.

Ser e escrever

“O senhor me pergunta se seus versos são bons. Pergunta isso a mim. Já perguntou a mesma coisa a outras pessoas antes. Envia seus versos para revistas. Faz comparações entre eles e outros poemas e se inquieta quando um ou outro recusa suas tentativas de publicação. Agora (como me deu licença para aconselhá-lo) lhe peço para desistir disso tudo. O senhor olha para fora, e é isso sobretudo o que não deveria fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele entende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isso: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profundo. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples “Preciso”, então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso.” (p.24,25)

O poeta Rainer Maria Rilke, ao ser indagado por jovem aspirante a poeta a respeito do que era necessário para se tornar um escritor, não lhe responde com dicas de técnicas literárias ao com métodos de trabalho, a resposta para ele está na pessoa, na necessidade quase divina de se escrever que deve, assim, moldar a vida. Ser escritor para o poeta beira uma categoria biológica determinada pelo nascimento. A escrita não é para ele um ofício que se escolhe, é uma forma de vida que escolhe seus adeptos.
O que vemos nas palavras de Rilke, quando comparamos com outros relatos de escritores, é que o ofício do escritor, assim como todos os outros, é carregado de atribuições simbólicas que variam de acordo com os contextos históricos em que cada escritor está inserido.
Não é a toa que quando lemos Rilke não encontramos nada parecido com um manual de redação, o que temos é quase um livro de auto-ajuda, maneiras de se conduzir a vida, o autor e o texto se fundem em uma só coisa. Para o poeta tudo que está no texto deve ser do autor, já que vida é pautada pela necessidade de escrever.
Hoje ainda encontramos esse tipo de fala, que atribui a escrita a um processo doloroso, quase um parto. Ainda que a idéia de inspiração venha sido somada ao trabalho de horas em frente ao texto, a concepção do sofrimento e da tormenta do ato de escrever como valor ou mérito de um texto é bastante usual e difundida. Como se bons escritores não pudessem ser felizes e falarem de coisas tristes.
Não acredito que Rilke não tenha de fato transformado sua vida em função dessa necessidade de escrever descrita por ele, e tão pouco deixo de acreditar que atualmente não existam escritores que, com base no domínio do método, sigam a riscas manuais de como escrever e acreditem piamente que este é caminho. Cada época forma seus próprios escritores.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Entre mergulhar e debruçar na escrivaninha

“Quem escreve (quem pinta, esculpe, compõe música) sempre sabe o que está fazendo e quanto isso lhe custa. Sabe que deve resolver um problema. Pode acontecer que os dados iniciais sejam obscuros, pulsionais e obsessivos, não mais que uma vontade ou uma lembrança. Mas depois o problema resolve-se na escrivaninha, interrogando a matéria sobre a qual se trabalha – matéria que possui suas próprias leis naturais, mas que ao mesmo tempo traz consigo lembranças da cultura de que está embebida (o eco da intertextualidade).

Quando o autor nos diz que trabalhou no raptus da inspiração, está mentindo. Genius is twenty per cent inspiration and eighty per cent perspiration.

Não me recordo a propósito de que célebre poema de sua autoria Lamartine disse que lhe tinha nascido de um só jato, numa noite de tempestade, em um bosque. Quando morreu, foram encontrados os manuscritos com as correções e as variantes, descobrindo que aquele era talvez o poema mais ‘trabalhado’ de toda a literatura francesa.”

Umberto Eco em Pós- Escrito a O Nome da Rosa

“Ler romances me parece uma atividade muito normal, mas escrevê-los é algo tão difícil de fazer...Pelo menos é o que penso, até me lembrar como as duas coisas estão firmemente relacionadas(...).

Primeiramente porque escrever é praticar, com especial intensidade e atenção, a arte de ler. Você escreve para ler o que escreveu, ver se está bom e, é claro, como nunca está, reescrever - uma vez, duas vezes, quantas vezes forem necessárias para que fique algo que você suporte reler. Você é seu primeiro leitor, e talvez o mais severo.

Embora isso, reescrever e reler, pareça um esforço, na verdade é a parte mais prazerosa da escrita. Às vezes a única parte prazerosa. Começar a escrever, quando se tem na cabeça a idéia de ‘literatura’, é formidável, desafiador. Um mergulho num lago gelado. Depois vem a parte quente: quando você já tem alguma coisa para aperfeiçoar, editar. (...)

Aquilo sobre o que escrevo está fora de mim . O que escrevo também é mais inteligente do que sou. Porque posso reescrevê-lo.” (...)

Susan Sontag, em texto publico no “The New York Times”, Mergulho num lago gelado.

“APRENDI que o ato de escrever é uma seqüela do ato de ler. É preciso captar com os olhos as imagens das letras, guardá-las no reservatório que temos em nossa mente e utilizá-las para compor depois as nossas próprias palavras.
APRENDI que, quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros. Não se incomodaram com isto. E copiar me fez muito bem.

APRENDI que, para aprender a escrever, tinha de escrever. Não adiantava só ficar falando de como é bonito” (...)

Moacyr Scliar em Vinte e uma coisas que aprendi como escritor

Qual a relação entre ler e escrever? Entre inspiração e revisão? O quanto do trabalho de criação vem da releitura e da tentativa de sair do papel de autor e se portar, por alguns momentos, como o leitor de seu próprio livro? Os trechos acima nos dão idéias do que pensam estes escritores. Gosto muito da idéia de Moacyr Scliar em encarar a leitura, para um escritor, como a formação de um “reservatório”, tanto de imagens como de palavras. Como se falássemos de um armário de recursos literários da qual ele se apropria e recria com suas palavras.

Tanto Moacyr Scliar como Susan Sontang apresentam a leitura e escrita como sendo uma conseqüência da outra, uma “sequela”. Susan se coloca como sua leitora mais severa, e é provável que seja, já que ela é única que tem o texto na cabeça, e, portanto já concretiza as imagens e sentimentos que deseja despertar no leitor

Não creio que seja o desejo do autor que seu livro seja interpretado exatamente como ele imaginou, o próprio Umberto Eco, diz do imenso prazer que tem em descobrir que seus leitores tiveram percepções distintas, afinal para ele o romance é uma “máquina de interpretações”, desde seu título até a última linha.

O trabalho de criação e revisão são, por Susan e Moacyr, comparados com o ato de esculpir, de extrair e lapidar daquele vasto reservatório de palavras aquelas que provoquem o efeito desejado. É por isso que a etapa dos manuscritos, dos esboços é tão importante, é o trabalho de revisão que dá voz a criação.

Para nós leitores, que recebemos o livro como um todo, as palavras parecem que sempre estiveram ali. Não lemos pensando “e se o autor tivesse colocado essa palavra no lugar dessa?”, lemos pensando se gostamos ou não, e buscando interpretar e mesmo críticar, mas a escolha não está mais em questão, e para o leitor, nunca esteve, é o ofício do autor.

Saber a hora que o romance está pronto e que aquelas são as palavras e frase que devem permanecer é o momento quente após mergulho no lago gelado figurado por Susan. É na releitura que o autor decidi que terminou, que enfim o livro ganhará uma vida que ele não mais controla.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Dos segredos

Na sexta feira aproveitei a tarde livre e a escapada mais cedo do trabalho do meu namorado para tentar minimamente atualizar a lista de milhões de filmes que quero assistir e que, por outras milhões de razões, acabo não assistindo.
Fomos ver O segredo de seus olhos (El secreto de sus ojos, 2009), filme argentino ganhador do Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro.
Gosto muito do pouco que conheço do cinema argentino e entre meus filmes preferidos, não apenas portenhos, está O filho da noiva do mesmo diretor e roteirista, Juan José Campanella, o que me levou a chegar ao cinema com grandes expectativas.
O que eu esperava, e tanto adoro, encontrei no filme: uma mistura de um humor bastantes irônico e tipicamente argentino, com reflexões densas sobre a vida e suas escolhas. O roteiro é excelente e as cenas são extremamente sensíveis e logo se nota a preocupação com os mínimos detalhes por parte do diretor. É um filme harmônico. Comédia, drama, romance e suspense com a precisão necessária o tornam muito envolvente e humano, alem da atuação, sempre ótima, de Ricardo Darín.
É bem verdade que nos momentos finais senti alguns desfechos um pouco atropelados enquanto outros pareciam se arrastar, mas nada que comprometa, nem minimamente, a qualidade do espetáculo.
O filme narra a história de Benjamín Espósito, um funcionário público recém aposentado que busca, por meio da escrita de um romance policial, baseado em caso que ele mesmo investigou 25 anos antes, encontrar e compreender o sentido de sua própria vida. Aqui o processo de criação literária está em segundo plano, já que o autor do livro, na verdade, não discute em nenhum momento as dificuldades para se escrever ou seus métodos de trabalho. O uso da narrativa literária por parte do personagem é na verdade um grande desabafo, beirando a escrita de um diário, ou de um “memorando”, termo utilizado no próprio filme, uso esse bastante comum por escritores amadores, que encontram na redação de livros espaço para realizarem certo revisionismos de suas biografias e também expressarem sentimentos que só se fazem entender quando colocados no papel. Quem nunca escreveu para espantar seus medos?
Sem dúvidas o filme é ótimo, mas o melhor não estava na tela, e sim a duas poltronas da minha: eram os comentários extremamente graciosos de duas senhoras já para lá da terceira idade que completavam e ressignificavam o sentido do filme, reforçando a qualidade do que passava na telona.
Não sei se por surdez ou meramente por acharem, corretamente, que a certa altura da vida tudo é permitido e que vergonha e embaraço são problemas dos mais novos, as duas simpáticas senhoras comentavam em voz alta (bastante alta) cena a cena do filme.
Não cabia a mim reclamar, até porque eu estava bem me divertindo e além disso, o que fazia eu numa sessão em plena tarde de sexta?!
Alguns comentários eram para evitar confusões, já que às vezes as duas acabavam misturando os personagens e as cenas que ocorriam no presente e no passado da trama. Contudo, a maior parte deles eram respostas antecipadas aos diálogos ou pequenas reflexões sobre a vida e as relações humanas.
Quando Benjamín se questiona sobre como é possível viver uma vida cheia de “nada”, a senhora logo respondeu pensativa e com certa melancolia “é... é difícil”, e a outra rapidamente concordou. Melhor ainda era quando os personagens faziam piadas sobre envelhecer, como quando disseram que Benjamim e a velha máquina escrever da repartição se entenderiam porque ambos eram “dois dinossauros”. Era só gargalhada nas poltronas ao lado! Riam e cutucavam, repetindo a piada em voz alta! Risada boa, engraçada e cheia de vida.
O filme falava delas, da vida que passa e que está longe de ser cheia “de nada”. O que se pode mudar e o que realmente já foi, passou?Aquilo que pode no máximo ser colocado em algumas linhas de um livro-memorando, para que se possa ler reler, achar graça e tentar encontrar o melhor final, dentre aqueles que a própria narrativa da vida nos impõe. Eu estava no horário da sessão errada, ou não, mas certa de que faltava muito para que eu realmente pudesse entender o filme.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Memórias da infância

As memórias da infância são tão vivas quanto construídas, sempre repletas de cheiros e sensações que são nossos portos seguros quando tentamos nos entender no presente, nos agarramos muitas vezes a elas para atribuirmos sentido a nossa trajetória de vida. É vazio e assustador demais pensar que nos tornamos o que somos por uma simples somatória de acasos.
Nos depoimentos João de Ubaldo Ribeiro e de Graciliano Ramos sobre o momento em que começaram a ler, ainda crianças, temos testemunhos distintos dessa experiência. Para Ubaldo ler era apenas uma questão de tempo, uma parte da vida, assim que ele atingisse os 6 anos de idade aprenderia, como um bebê quando começa a andar. As letras foram ao longo da primeira infância se tornando algo familiar e cotidiano, ainda que não as decifrasse já as conhecia bem, e como ele mesmo disse, juntá-las lhe pareceu facílimo.
Já para a família de Graciliano a alfabetização era um sinal de status, algo a ser conquistado e dominado ao custo de esforço e do côvado. A leitura para ele era algo distante de sua realidade e que se tornou uma obrigação que pouco lhe fazia sentido. Um verdadeiro sofrimento e uma grande decepção, já que logo percebeu que decifrar as letras não era o mesmo que atribuir sentido ao que se lia.
Embora as experiências sejam distintas, assim que terminei de lê-las, recorri às minhas memórias e não foi difícil recordar da ansiedade que me causava ver todo aquele alfabeto e saber que eu ainda não conhecia todas as sílabas. Treinava de maneira incansável a leitura, da janela do carro ia lendo todas as placas possíveis e sempre acabava tropeçando em algum “nh” ou em um acento grave. Ler era uma autonomia, era enfim fazer parte de um novo grupo. Tínhamos muitos livros infantis em casa, quase todos da minha irmã, e mesmo que ela me emprestasse e que eu gostasse das ilustrações dependia dos outros para saber o que estava escrito. Muitas vezes era minha própria irmã quem me contava as histórias, algumas vezes percebia que ela inventava o que estava escrito, em geral para me dar medo, ficava brava por saber que não tinha como ter certeza. Depois de grande, quando já sabia ler, pedia para minha irmã ler histórias para mim. Ela lia em voz alta Agatha Christie antes de dormirmos e juntas tentávamos descobrir os assassinos, mas isso já é uma outra história...
A alfabetização é diferente para cada um, variando do contexto familiar e social, mas para todos que vão até o fim e descobrem que aquele monte de símbolos são, mais do que palavras e sons, um mundo de idéias e possibilidades, a experiência das primeiras leituras é uma marca que levamos e que certamente permeia nossa relação com os livros e com a escrita. O que fica evidente em ambos os depoimentos é que o domínio da leitura, seja ele prazeroso ou sofrido, é um caminho sem volta que modifica a relação estabelecida com o mundo.
Propor uma relação direta entre a formação do indivíduo e a formação do escritor pode nos levar a certos reducionismos e a busca por fórmulas mágicas. Como se a formação de um escritor fosse a conseqüência de experiências específicas de vida. Ser um escritor não é uma equação matemática, cuja soma de certos números culmina sempre no mesmo resultado. Conhecer o momento em que esses dois escritores aprenderam a ler, acredito, é importante para entendermos suas obras e seus estilos literários. Serve para analisarmos seus casos específicos e, no máximo, caso desejemos generalizar, concluir que, para se tornar um escritor é preciso saber ler. Se quisermos ir além podemos dizer que também ajuda nessa equação cheia de variantes o fato de se ter uma família que valorize a leitura e escrita como um instrumento de transformação, seja de cunho pessoal ou social.
Lendo esses depoimentos, num primeiro momento me pareceu óbvio que a formação era fundamental tanto para o gosto pela leitura, como pela arte de escrever. Estava pensando em como escrever algo que defendesse essa hipótese enquanto escutava, parada no trânsito, uma reportagem na CBN de uma série intitulada “Casos e causos de Brasília”, em comemoração aos 50 anos da cidade. A matéria era sobre o açougue T-Bone, conhecido na capital como Açougue Cultural. Seu proprietário transformou boa parte do espaço em um a biblioteca popular, que hoje abriga mais de 20 mil abras, além de receber em seu espaço escritores, músicos e outros artistas para noite de autógrafos e eventos culturais.
De cara me pareceu mais um dessas invenções que servem para chocar e gerar espanto, já que carne refrigerada e livros não são a combinação mais evidente. O que me chamou a atenção de fato foi a trajetória de vida do idealizador do projeto, Luís. Quando menino, aos 12 anos, foi contratado pelo açougue e acabou morando por tempo nos fundos da loja. Foi alfabetizado somente aos 16 anos, e contou em seu depoimento como foi seu primeiro contato com os livros. Era um depoimento entusiasmado que muito lembrava o de João Ubaldo Ribeiro. Só foi ler seu primeiro livro aos 18 anos, um gibi de filosofia, não entendeu muito , mas achou interessante e dali em diante começou a ler compulsivamente livros de literatura e especialmente de filosofia, sua predileção.
Caberia investigar mais a vida de Luís para entender sua paixão pelos livros, mas a sua trajetória de vida, somada aos depoimentos de Graciliano e João Ubaldo, me fazem pensar que o gosto por ler e escrever não são fórmulas matemáticas, estão mais para receitas feitas por avós interioranas: sabemos que o fogão a lenha, que os anos de experiência e que as panelas de ferro são elementos importantes para o sucesso da recita, mas se perguntarmos o que exatamente vai ali, nem mesmo as cozinheiras saberão explicar.